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07 dezembro 2017

Motocross x Dieta e Treino

Tive o primeiro contato com a nutrição esportiva quando meu pai, Geraldo Starling, campeão de motocross na década de 1980, buscando melhora no rendimento físico de um piloto de 10 anos, seu aluno, marcou um acompanhamento nutricional com dois dos melhores nutricionistas de Belo Horizonte: Lupércio Farah e Carmen Zita. A partir da melhora significativa do desempenho do garoto nas competições comecei a me interessar por esta área que me viciou assim como a modalidade esportiva.

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O título desta matéria diz muito sobre a evolução da nutrição no rendimento esportivo nos últimos anos. A partir de um novo conceito gerado através de recém-chegados conhecimentos das principais áreas científicas da saúde como a fisiologia, a endocrinologia esportiva e agora também a nutrigenômica (um novo "braço" da biologia molecular e da bioquímica, que estuda como os alimentos além de nutrir podem atuar em nosso código genético - DNA), está sendo possível entender que a nutrição, e a forma como ela é conduzida, interfere diretamente em processos celulares que irão gerar a resposta adaptativa ocasionada pelo exercício.

Esse conceito de periodização nutricional remete-nos à periodização de treinamento físico, que já vem sendo há tempos aplicada por preparadores físicos, que baseiam a montagem da rotina de exercícios dos atletas em seus objetivos específicos daquele momento (ganho de força, fase de recuperação, etc.). No conceito da nutrição também podemos pensar em momentos distintos: a periodização nutricional diária e a periodização de acordo com o momento em que os atletas se encontram (pré-temporada, semana pré-competição - que será discutida mais profundamente em nossa próxima matéria - e até mesmo em momentos de recuperação). Esta periodização diária pode ser exemplificada muito claramente pelos boxers, que desde sempre utilizaram a atividade física em jejum pela manhã - algo que era visto como uma "pseudociência", já que não havia comprovação científica para tal prescrição. Atualmente vários e diferentes protocolos científicos demonstram que a referida prática é benéfica para o aumento do rendimento esportivo a médio e longo prazo.

Falamos em médio ou longo prazo pois sabemos que o carboidrato e os antioxidantes são recursos ergogênicos que têm a capacidade de aumentar o rendimento do atleta durante o exercício; porém estudos atuais mostram que eles podem diminuir a resposta adaptativa ao exercício, que é a forma como o corpo irá reagir ao stress gerado por aquela atividade buscando aumentar o seu condicionamento e, assim, não sofrer tanto na próxima sessão. Alguns autores dizem que isto seria um raciocínio lógico quando pensamos evolutivamente, já que o corpo de um homem das cavernas pouco alimentado, o que significaria baixa eficiência na caça, deveria produzir mais mitocôndria para possibilitar mais capacidade na próxima busca por alimento.


Esquema da sinalização induzida no exercício buscando um aumento da capacidade da mitocôndria (em laranja) em produzir energia e com isto gerar melhor rendimento ao atleta

Sendo assim, entramos em uma questão complicada quando pensamos em atletas de esportes radicais, onde o risco de acidentes é um fator constante. Estudos como o de Bedolla e colaboradores, de 2016, analisando o padrão de quedas na MotoGP, demonstram que em média a cada 10 horas de pilotagem uma queda se faz presente. Já quando analisadas lesões de cabeça e pescoço para 7 diferentes modalidades de esportes radicais, a taxa de incidência anual se mostra preocupante já que a cada 10 mil praticantes cinco deverão sofrer este tipo de lesão. E quando analisamos mais especificamente o Motocross, podemos ver que lesões de cabeça e pescoço representam 12 a 14% dos acometidos por quedas.

Então, o que fazer? 

A melhor forma que tenho visto é utilizar os treinamentos "fora da moto" como momentos para usar a técnica de restringir o uso de antioxidantes e carboidratos. Mas devo ressaltar que esta estratégia não implica em diminuir a quantidade de vitaminas, minerais (cofatores de reações) e carboidratos. Ela somente "periodiza" a sua ingestão, até mesmo porque estes serão de extrema importância, tanto para que esta resposta adaptativa ocorra quanto para a manutenção da atividade do sistema imune do atleta.


Evolução humana

Mas, e na prática, como podemos ter estes benefícios?

O mais indicado é a utilização de uma pequena refeição tanto pré quanto pós treino, contendo essencialmente proteína e gordura. O côco se mostra como uma boa opção, por conter um tipo de gordura (conhecidas como ácidos graxos de cadeia média) que é facilmente utilizada pelo corpo e que nos gera energia rapidamente. Além disto o consumo de carboidratos próximo (em geral 3 horas antes e 3 horas após o exercício) deve ser diminuído e a utilização de antioxidantes deve ficar para horários mais distantes desta atividade.

Devemos lembrar também que um trabalho multidisciplinar entre preparadores físicos, médicos do esporte, fisioterapeutas, psicólogos e até mesmo os treinadores da modalidade é o ideal, pois tal estratégia nutricional poderá não ser a mais efetiva em determinados períodos, como em fases em que objetivo é o ganho de força/massa muscular e aumento na qualidade daquela atividade física.

Exemplo de refeição pré e pós-treino para atividades físicas "fora da moto" (uma porção de cada um dos grupos):

Proteína: queijo, carne, whey, proteína da soja, etc.

Gordura: côco (in natura, leite de côco, óleo de côco), castanhas, amendoim, azeite de oliva, abacate, etc.

Porém devemos lembrar que o desenvolvimento de um plano alimentar personalizado por um profissional especializado é a forma mais indicada.

Fonte: https://www.motox.com.br/publix/11100/nutricao-esportiva-periodizacao-nutricional-no-motocross

Piloto de moto x Alimentação

Atletas amadores, porém atletas de motociclismo de qualquer classe também devem ter atenção ao nível de massa muscular, já que ela poderá ser importante em momentos críticos, como na tentativa de correção de erros durante a pilotagem, ou mesmo para amortecimento de quedas e preservação de tendões, ligamentos e ossos, e ainda assim serve como um local de armazenamento de energia.
Claramente, pilotos de MotoGP e até mesmo de modalidades fora de estrada que utilizam motocicletas com baixa cilindradas poderão ter prejuízos se estiverem com peso elevado, porém devemos lembrar que uma das principais formas de adaptação do corpo do atleta à uma sobrecarga é a hipertrofia. Quando falamos em hipertrofia não falamos de um aumento bruto de massa muscular como ocorre nos fisiculturistas, falamos em um aumento de tamanho da fibra muscular e isto não necessariamente fará com que este piloto seja pesado. Ao fazermos trabalhos fora da moto devemos entender que isto de alguma forma deverá gerar um stress e uma reposta positiva e com isto teremos, além de uma melhor capacidade para utilização de energia, também um aumento de mitocôndrias e um ganho de massa muscular. Este ganho muitas vezes será pequeno, já que ao trabalharmos fibras mais resistentes iremos ter uma possibilidade menor de ganho.

Além disto, como discutido na seção anterior "Nutrição pré-competição", podemos verificar que quanto maior a massa muscular maior a capacidade de estocarmos energia na forma de glicogênio. Isto também vale para a capacidade de guardarmos energia na forma de triglicerídeo intramuscular (falando de forma simples: "a gordura armazenada no músculo") e esta será de grande valia durante a competição.
Dentro de milhares de suplementos e fórmulas mágicas para ganho muscular temos que focar no que realmente nos traz resultados reais e que já foram descritos em estudos sérios. Quando analisamos pesquisas que utilizam diferentes tipos de proteínas na alimentação de atletas, vemos que independente da forma de proteína ofertada (Whey, caseína, proteína da soja, entre outras) a quantidade será o fator mais importante. Isto mesmo, Whey Protein não se mostra melhor ou pior que outras fontes proteicas (caso não esteja acreditando - busque pelo estudo de Fabre que segue como Bibliografia), e inclusive para os atletas que acompanho só a indico para alguns pela praticidade de seu uso. Se a quantidade diária é o que importa, então quanto devo utilizar? Estudos tem mostrado que 2g/kg de massa magra tem apresentado resultados ótimos. Ou seja, para ganho de massa magra pilotos devem buscar ingerir em média 120 gramas de proteína por dia em aproximadamente 6 refeições. Sendo assim, buscar em todas as refeições consumir 100g de carne/peixe ou 3-4 porções de lácteos (500ml leite ou 4 fatias queijo) ou 3 ovos ou mesmo combinar estes alimentos para obter uma refeição com a quantidade ideal. Também podemos utilizar 1 dose de Whey ou de proteína de soja ou mesmo outros suplementos que contenham um alto conteúdo proteico. 

A creatina e o HMB (Hidroxi-metil-butirato) são suplementos que apresentam bons resultados na literatura. A creatina, já mais conhecida e popular, é uma molécula que o corpo já produz naturalmente, porém, a sua suplementação com 0,15g/kg de massa magra (geralmente 10g/dia) tem mostrado tanto ganho de massa muscular quanto de força. Inclusive temos indicado atletas em períodos de recuperação de lesões, já que ao retorno dos atletas às suas atividades os mesmos têm sentido menos perda de rendimento. Já o HMB é um derivado da Leucina, um aminoácido que está presente em nossa alimentação diariamente. 3 gramas por dia têm mostrado bons resultados de ganho de massa muscular. Ambos os suplementos acabam por estimular uma via conhecida como via de mTOR sendo esta ligada a geração de hipertrofia. 
A maioria dos outros suplementos poderão apresentar resultados positivos, porém geralmente podemos ver estes resultados em situações em que indivíduos apresentam deficiência deste ou aquele mineral/vitamina ou hormônio. Então devemos lembrar que os minerais e vitaminas deverão ser sempre acompanhados por exames bioquímicos ou mesmo pela identificação de sinais que indiquem sua deficiência através do exame clínico (unhas fracas, cabelo quebradiço, etc), para que assim sejam corrigidos. Por existir um alto gasto energético no Motocross, Enduro e Supermoto, os atletas apresentam uma maior prevalência e assim deverão corrigir estas deficiências sempre que identificada por um médico, nutricionista e outros profissionais da saúde.

Além disto, as calorias totais ingeridas diariamente devem apresentar um pequeno excesso quando comparadas com as calorias gastas no dia. Isto é um fator importante e em que se deve ter um equilíbrio para que não se ganhe massa gorda e para que não se haja perda de peso.

Fonte: https://www.motox.com.br/publix/11353/nutricao-esportiva-nutricao-para-ganho-de-massa-muscular